terça-feira, 8 de novembro de 2011

MMV (1)

Era apenas um garoto de treze anos de idade. E que idade complicada de se ter! Idade da cobrança nas notas, idade da cobrança na postura, idade da cobrança de tudo.
Ele estava na época de todas as ansiedades, de todas as esperas intermináveis! Por quanto tempo mais tenho que esperar para completar meus quatorze anos? E por que não posso logo ter quinze?
Aquela era a idade de sempre achar que o espelho era o pior inimigo! Uma espinha? Logo aqui? Logo hoje? (Como se houvesse dia certo para se ter espinha no rosto...)

Mas havia algo diferente nele naquele dia.

Mais cedo, ele havia tentado se lembrar – em vão – o nome daquela atriz que faz aquele papel naquele filme... Aquela atriz cujo rosto causava comoção entre os iguais, os demais... Mas ele não conseguia bem encaixar de quem aquela menina havia roubado aquele rosto...
Mas os olhos... Ele bem sabia a quem pertenciam! Mas não eram bem assim os olhos que ele conhecia. Aqueles olhos eram diferentes, atraentes, pareciam felizes, mas, ainda assim, sabiam esconder o que realmente queriam – apesar de todo o brilho.
E as suas pernas? Quando essas pernas passeavam pela rua, sorridentes, serelepes... Parecia que o sol apenas acompanhava para ver até onde o pescoço daquele garoto ia.
Os demais riam e assobiavam. Eles eram idiotas, eles não entendiam, eles não sentiam o que se era para sentir... A única reação que poderiam ter seria rir de mim, e acertar minha cabeça com uma bola de futebol de salão meio murcha.
Antes de cessar aquele instante de admiração, ainda pôde o garoto perceber os módulos de estudo pré-vestibular daquela menina... mais alta... mais moça... mais velha.

Resultado? Horas e mais horas de músicas do Legião Urbana, no escuro da sala, deitado no sofá... Imaginando, apenas, o que é sentir dor de se querer algo inalcançável... Montes, Castelos, Metal, Nuvens, Led Zeppelin, All of Your Love, Love of My Life… Momentos, que duram eternidades no escuro de cada harmonia, no pranto de cada melodia, nas estações das letras de música.
Descobrir quem era aquela menina. Descobrir seu nome. Conhecer seu irmão mais novo. Se aproximar dela. Protegê-la de todos os homens que só vão machucá-la... É preciso ter objetivo e método!
Era paixão... era novo... e era eterno!

...

Ele já pegou algumas meninas. Ele já foi para festas. Ele já bebeu. Agora, ele está careca.
Tradição que é tradição, corre por muitas gerações. Seus primos, todos, ficaram carecas, felizes e foram parabenizados por toda a família! Esta foi a sua vez de ser parabenizado. E de ficar careca.
E, por seu método, com a determinação de sempre, com a cabeça em seu objetivo... Ele conseguiu, sim, o que mais queria: se igualar ao feito conquistado pela menina!
Pois ela, na segunda semana de aula, participou do trote que sujou o garoto de farinha de trigo, borra de café, água, creme dental, ovo e tinta guache. E ele conseguiu trocar palavras com ela além da insegurança que sempre pairou por ela ser universitária, ou quase universitária, na maior parte da vida deles, até então.

Mas as palavras de euforia e empolgação do garoto conflitavam, em certa medida, com aquelas proferidas pela cansada e compromissada menina. Às portas de concluir o curso universitário, sua preocupação superava os inúmeros códigos e leis – os quais carregava no vade mecum até o punho doer, e era depositada nas horas de estudo para o exame de ingresso profissional para os advogados.
E a decepção, a angústia, a tristeza e o sentimento de invisibilidade tornavam a fazer convívio com aquele garoto. Aliado a tudo isso, a pressão dos pais pelo esforço nos estudos, algo de bom tamanho para compensar a dedicação pela boa educação prestada.
O garoto empunhava, assim, sua guitarra, tocando, às vezes fora do tom, às vezes errando o acorde... Mas o importante era dizer aquilo que a música tomava como suas palavras, ou suas emoções... About a Girl, Creep, Proibida Pra Mim, versão Zeca Baleiro...
E descontava suas lágrimas em notas agudas, cujo falsete nem sempre era competente... Mas fazia mais sentido quando se ouvia como uivos...

... que se tornaram mais doloridos ainda quando ela se formou. E foi morar longe.

...



Dez anos. Espaço de duas copas, três olimpíadas e cinco eleições. Graduando, e com anel de noivado, o garoto, enfim, seguia firme na sua intenção de trabalhar e ser o melhor profissional de sua área.
Mas eis que surge o natal. Sempre ele. Aquele que traz os parentes, que traz as lembranças, traz as birras e o cheiro de mofo dos enfeites.
Filas nos shoppings, falta de dinheiro nos caixas eletrônicos... Simone cantando em cada esquina, com delay de 47 segundos entre uma loja e outra.
Dez anos, no Natal. Essa foi a duração, e a época. Ela ressurge, de mudança, de volta à vizinhança.
Dez anos é muito tempo, o suficiente para se esquecer dos antigos amores, ou não esquecer, mas construir por cima, e apesar, dos antigos amores. Essa é a época propícia para ser feliz! A JUVENTUDE!
Mas a menina está de volta. Aquele rosto que nunca pertenceu a atriz nenhuma... aqueles olhos brilhantes... aquelas pernas balbuciantes... aquele trejeito que não tem jeito de não tremer. Ela voltou, sim, voltou! E o garoto? Também voltou.

Voltou aos seus treze anos de idade. Voltou a ter olhares, a ter impaciência, a temer. Aquele homem era seu garoto por dentro, e em suas reações.
E a coragem, que sempre lhe faltara? Será que sempre faltará?
Nessas horas se entende a importância de redes sociais na internet. Como é a melhor forma de se expor? Como será a melhor forma de mostrar que aquele garoto cresceu? Sem encarar os olhos.
Menina e garoto aprenderam que a verdade na internet sempre consegue esconder a pressa do coração em bater, a base da perna a tremer, a voz a gaguejar. E assim foi o primeiro encontro de peito aberto deles... dele, digo!
Naquela hora e quarenta e dois minutos de conversa de teclado e mouse, o garoto confessou aquilo tudo que sentia, que estava bem guardado... “o amor que nunca soube dar”, “o amor que sempre quis mostrar”...

Caros leitores, me perdoem o eterno transcorrer desse caso. Essa estória não é experiência pessoal minha, nem de ninguém que pessoalmente eu conheça. E eu ainda não sei como termina. A menina ainda não me contou. E ele ainda não criou a coragem de escrever na internet o que tanto deseja confessar.

Afinal, sentimentos de dez anos não se esvaem, não somem, não se perdem. A la Lavoisier, se transforma em carinho, em medo, em obsessão, em fraternança (isso se chama neologismo).

Mas esta sina de platonismo no amor é um sentimento bem comum, um sentimento jovem, vívido e vivido, bonito de se ver quando se tem maior idade. E nostálgico. Como é bom se sentir assim, como gostaríamos de nos sentirmos mais uma vez como o garoto, apaixonado pela menina mais velha...


E esta postagem deve atrair continuação.


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