Assisti, há pouco, ao filme do Cláudio Torres “O Homem do Futuro”, com Wagner Moura e Aline Moraes nos papéis principais. Rápidas considerações acerca do filme, que achei bem divertido, e com uma mensagem positiva acerca de presente e amor (algo como o que Woody Allen fez por mim em “Meia-noite em Paris”, mas com linguagem diferenciada).
Estórias sobre viagem no tempo sempre me deixaram aficionado, sendo da geração Back to the Future (ainda fico cantando uns trechos da trilha sonora vez ou outra). Daí porque gosto tanto de H. G. Wells, “Os 12 Macacos”, “Efeito Borboleta”, “Lost”, “Heroes” (este ainda nas primeiras temporadas)...
Apreciei, ainda mais, as seguidas citações ao próprio “De Volta Para o Futuro”, como a roupa de astronauta, ou o personagem batendo a cabeça no carro. E, olha só que legal, o personagem principal tem o nome de meu filho, João Henrique!
Para melhorar tudo, só faltava fazer um filme com a cara dos filmes dos anos 80 e 90! Pois fizeram! Uma história simples, divertida, ambientada entre 2011 e 1991, com direito a festa de jovens fantasiados (ei, referência a “Donnie Darko”!), pessoas com sonhos e sem perspectivas, final feliz e boa música!
Com a presença de REM – que em 1991 estorou mundialmente com o álbum “Out of Time” (hum... citação?), Legião Urbana e seu “Tempo Perdido”, Ultraje a Rigor cantando “Inútil” antevendo a geração pré-caras-pintadas. E, claro, (como esquecer o hino nerd de todo fool in love?) “Creep”, cantada pelo Wagner Moura himself (um amigo próximo do Wagner certa vez me disse que cansou de dizer para ele largar esse negócio de banda, pois ele não vai para frente como cantor)!
Mas não foi para fazer uma crítica objetiva do filme que reservei preciosas horas do meu dia escrevendo neste blog. Resolvi adentrar num caminho meio filosófico e meio subjetivo.
Se no “De Volta para o Futuro” Doc. Emmet L. Brown considerou que devia haver algum tipo de magnetismo temporal no dia 12 de novembro de 1955 – o dia “D” do filme, neste “Homem do Futuro” o cineasta e roteirista elegeu 22 de novembro de 1991 – mesmo mês, apenas dez dias depois se fossem no mesmo ano e (coincidência?) o dia de amanhã há vinte anos.
Não me recordo desse dia na minha vida, a não ser que eu tinha dez anos de idade, morava na Rua Rio de São Pedro (Salvador), cursava a 4ª série da Escola Pequenópolis na turma de Tia Iracema e participava de um grupo de teatro. Por este, apresentamos a peça “Isso é Século XIX?” naquele ano. Nessa época, ainda, eu tinha uma paixão secreta (mas largamente publicada) pela colega e amiga de minha irmã mais velha e ia, toda semana, para a loja de discos “A Modinha” do Shopping Barra para ouvir e decorar a letra de “Faroeste Caboclo” (naquele ano, no meu aniversário ou no Natal, eu ainda ganharia todos os cinco primeiros discos da Legião Urbana em vinil, os quais guardo até hoje de recordação).
Mas essa idéia de que haverá sempre uma data específica na nossa vida que nos definirá para todo o sempre é que me veio impregnar a mente hoje.
No filme do Cláudio Torres, o dia 22/11/1991 foi infestado de acontecimentos que definiram a vida do personagem principal. Será que realmente existe isso? Será que eu poderia indicar uma data específica cujo substrato desdobrado resultou na pessoa que sou hoje?
E então comecei a viajar nas diversas datas que foram de alguma forma importantes para mim e me definiram como o homem que hoje a vós se apresenta.
De minha infância, pouca recordação datada. Mas os dias 21/06/1990 e 29/10/1991 foram importantes. Dos nascimentos de meus irmãos aprendi muito sobre o que é ser referência para alguém, de bons ou maus costumes. Aprendi que devo tentar ser o melhor de mim, para mim e para aqueles que em mim se vêem.
Em 26/12/1994 embarquei numa viagem ao desconhecido mundo da adolescência americana. Muito embora já tivesse morado lá quando pequeno, daquele dia em diante tive uma idéia mais equilibrada do que era o mundo. Conheci muita gente nova, e com personalidades tão distintas do brasileiro que chega a ser indescritível. Aprendi a vencer o medo e a timidez – embora tenha sido parcialmente – apresentando uma peça em língua diferente da minha língua mãe e diante de olhos tão desconfiados quanto díspares.
Em 06/02/1996, o dia em que desembarquei no Aeroporto Dois de Julho e fui morar com meu pai, sua esposa e meus irmãos, tive o início de outra experiência transformadora. A situação que se apresentava não era das melhores, a época não era das mais felizes. E, para um adolescente de 14 anos, dividir o quarto – e quase uma cama – com a irmã mais velha era tão frustrante quanto para uma adolescente de 16 anos dividir um quarto – e quase uma cama – com o irmão mais novo. Aprendi a ser paciente e tolerante (até certa medida, ok?).
Para minha felicidade, veio o dia 25/03 daquele mesmo ano, quando tive meu primeiro contato com o amor desplatonizado. Namorando e descobrindo os limites do corpo, sentindo transformações e sensações através do toque dos lábios num beijo, aprendi a ser uma pessoa extremamente tátil! Isso tem me penalizado por demasia nos últimos meses, eu sei!
Em 1997, o dia 29 de dezembro me mostrou as lágrimas de meu pai pela primeira vez. Esse dia realmente marcou muito em mim! Porque, embora eu tivesse perdido outros entes queridos antes (e depois), inclusive tendo participado do enterro de minha avó materna (ajudando a empurrar o caixão dela), eu senti naquele dia o que era dizer adeus às novas memórias de uma pessoa querida e especial. Aprendi que a vida é frágil; aprendi que os nossos ídolos também são pessoas com suas fragilidades; aprendi que temos que ser mais fortes do que gostaríamos, mais sólidos do que podemos, e essa força e solidez deve ser acreditada pelos próximos, que a ti necessitam.
11 de abril de 1998 e 22 de maio de 2011 dividem a mesma importância. Nesses dias eu assisti aos shows de Rolling Stones e Paul McCartney, respectivamente, ambos no Rio de Janeiro. Aprendi que nunca se é tão velho para realizar um sonho.
No dia 19 de fevereiro de 2000 ocorreu outro grande acontecimento em minha vida. Conheci a pessoa que iria me definir em muitos aspectos e escreveria, com ela, quase que um terço de minha vida até aqui. Antes do final da década, eu seria uma pessoa que em muito difere daquela que fui e daquela que sou. Aprendi que não adianta forçar, pois o amor virá naturalmente até você. Aprendi muito sobre ser sincero, sobre o que é ciúme, sobre o que faz a mentira, sobre como eu posso ser um anjo e/ou um demônio. Aprendi o que faz um amor.
No dia 14 de dezembro daquele ano, iniciei os serviços no meu primeiro estágio – primeiro contato com um lado profissional. Aprendi muito sobre hierarquia, iniciativa, liderança e decisão. Ah, e pressão, resultando, deste último, uma internação de quatro dias por conta de pleurite (a partir de 05/02/2001).
1º de maio de 2002. Oito anos da morte de Senna. Para mim, foi um dos dias mais complicados de minha vida. Fruto de uma discórdia com minha mãe, nesse dia eu saí de casa e fui morar com a minha então namorada – futura esposa. Cinco meses dolorosos se sucederam. Outros tantos de trabalho, penando para cumprir corretamente os estudos na faculdade e conciliar com a necessidade de financiar comida, contas e transporte. Aprendi que nenhuma conquista vem de graça, tudo a preço de custo. O eterno retorno só ocorreria em 22/03/2011.
Dia 06/08/2004. Minha colação de grau. Bem, agora que terminei os estudos da faculdade, o que será de mim? O que virá? Aprendi que ali não era o fim, mas um novo começo!
No ano seguinte, em 10 e 12 de agosto, um novo acontecimento, consumado apenas em 03/10/2005 e com resultados práticos a partir de 10/10/2005: minha convocação para meu atual trabalho. Não só o meu trabalho estável, mas a minha mudança de CEP para um lugar totalmente desconhecido. Na última data citada, me apresentei em Barreiras, a quase 900km de Salvador – cidade em que vivi a maior parte de minha vida. Longe da família, sem conhecer ninguém, a esmo no ermo do faroeste baiano. Aprendi, mais uma vez, que minha mentalidade metropolitana e cosmopolita pode ser tão tacanha quanto a mentalidade provinciana. Dessa vez, me rendi aos prazeres e delícias de uma vida simples, tranqüila, na qual o seu rosto é conhecido em cada esquina e todo mundo sabe o carro que você dirige.
20/02/2007? Talvez a data a partir de quando muito da minha vida passou a fazer sentido. O nascimento de meu filho. Não é necessário transcorrer sobre a importância da data, posto que óbvia! Aprendi o que é ter que ser super todos os dias. Aprendi o que é amar. Aprendi o que é ser amado. Aprendi a minha importância para os meus pais.
15/07/2009. Depois de cinco dias oficialmente como divorciado, meu filho e eu não moramos mais na mesma casa. Aprendi o que é altruísmo. Aprendi o que é solidão.
20/03/2010 foi o primeiro show oficial da minha banda. Aprendi a dimensão da influência musical em minha vida. Aprendi o que é improvisar. Aprendi o que é ser visto, analisado, criticado...
No dia 16/09/2010 eu tive uma lição fundamental. Aprendi que nada nos é garantido. Aprendi que, às vezes, ninguém nos enxerga melhor do que nós mesmos. Se você é bom em algo, acredite; se você acredita que é bom em algo, você só será bom mesmo se assim for reconhecido pelos outros. Se você não tem competência para isso tudo, você não é bom.
No dia do meu eterno retorno, aprendi como é valioso ter família.
Concluindo, sem ter resumido nada, e com a paciência que você teve para chegar nesta conclusão... Ah, e sem querer fazer qualquer sentido com as minhas palavras...
Eu não posso dizer que tive um dia que me definisse como a pessoa que sou hoje. Aliás, não posso dizer que tive um único dia. Tive vários. Para ser mais exato, 11.024 dias até aqui. Todos os dias de minha vida foram decisivos para me definir.
Tudo o que fiz entre acordar e dormir – mesmo naqueles dias em que só houve o “acordar” ou o “dormir” – foi importante. Todas as minhas atitudes, todas as minhas decisões.
Isso me leva à grande conclusão de que meu próximo dia para entrar na lista é 21 de novembro de 2011. Ou seja, exatos vinte anos (menos um dia) depois do personagem de Wagner Moura no filme.
HOJE!
P.S.: Algum de vocês, leitores (plural? Prepotência minha?), arriscaria lembrar qual data fez toda a diferença na sua vida e contar o motivo?
A data eu não lembro... mas quando escrevi minha primeira música foi o dia mais lindo da minha vida... Foi como se eu finalmente tivesse encontrado um motivo na vida... Aos 9 anos. Foi mágico. ;)
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